A fera tranqüila


As ariranhas foram rotuladas como animais ferozes. Pesquisas buscam agora salvar a espécie – e acabar com a má fama.

por João Marcos Rosa

Nas água do Pantanal: a caça, legal até os anos 1960, deixou essas lontras perto da extinção. Foto:    João Marcos Rosa

Nas água do Pantanal: a caça, legal até os anos 1960, deixou essas lontras perto da extinção.   Foto: João Marcos Rosa

Agosto de 1977, zoológico de Brasília. Ao entrar no fosso das ariranhas para resgatar um garoto que lá havia caído, o sargento do exército Silvio Hollenbach não imaginava estar colocando sua vida em risco, e também a reputação daqueles mamíferos aquáticos. Já nervosos com a presença do menino no espaço e num ato de proteção a filhotes recém-nascidos, os animais atacaram com mordidas as pernas do oficial. O desfecho do episódio foi trágico. O menino havia sido salvo,mas Hollenbach morreu três dias depois, vítima de infecção generalizada. O fato marca até hoje a história das ariranhas no Brasil. Pacíficas por natureza – são os únicos mamíferos carnívoros que mantêm estrutura familiar nas Américas –, as ariranhas, depois do lamentável acidente, foram rotuladas como feras perigosas. O preconceito persiste, mas é apenas a falta de conhecimento sobre a ainda pouco estudada espécie que sustenta essa visão simplista e equivocada.

Dizimadas pela caça para o comércio de sua pele, atividade legal no Brasil até o fim da década de 1960, as ariranhas ocupavam as principais bacias hidrográficas do país, mas hoje estão confinadas em algumas áreas do Pantanal e da Amazônia. Classificada oficialmente como em risco de extinção pela Lista Vermelha do Ibama, ela também é considerada pela World Conservation Union (IUCN) “a espécie de lontra mais ameaçada do mundo”.

As causas do drama são antigas. As ariranhas ressentem-se da constante expansão de atividades humanas em seus hábitats, como a construção de hidrelétricas e a contaminação das águas pelo mercúrio usado em garimpos clandestinos. “Apesar de algumas populações terem se recuperado em áreas onde estavam praticamente extintas, os animais continuam com o desafio de conseguir restabelecer-se em sua área de distribuição geográfica original”, avalia a bióloga Helen Waldemarin. Segundo ela, a conservação das chamadas espécies-bandeira, como é o caso da ariranha, pode ser também o primeiro passo para o início da recuperação de grandes áreas degradadas. “As ariranhas estão localizadas no topo da cadeia alimentar. Portanto, se elas povoam algum rio, é ótimo indicador de que existe equilíbrio naquele ambiente e que ele se mantém saudável.”

Nos últimos anos, pesquisadores têm se empenhado em trazer à superfície novos dados sobre a biologia das ariranhas, mais conhecidas como “lobos- de-rio” em outros países da América do Sul. Eles pretendem em breve traçar estratégias de conservação nos ambientes em que os animais resistem, além de buscar a ampliação de tais áreas com a criação dos chamados corredores ecológicos, passagens que viabilizariam uma expansão territorial das ariranhas nas bacias hidrográficas em que foram quase extintas.

No Amazonas, cientistas do Instituto Nacional de Pesquisas Amazônicas (Inpa) desenvolvem há sete anos um trabalho na Reserva Biológica de Uatumã, que foi criada como compensação ambiental da área inundada em 1981 pela barragem da usina de Balbina. “Os estudos têm como maior objetivo avaliar o uso de lagos de hidrelétricas e a capacidade de adaptação das ariranhas a esses ambientes alterados”, analisa o coordenador Fernando Rosas. Para ele, ainda existe muito trabalho de campo pela frente até que se possam definir exatamente os impactos causados pela ação humana na floresta. “Em uma região transformada como Balbina, questões como dinâmica de grupos dos animais, por exemplo, só podem ser estudadas a contento se tivermos um projeto de longo prazo, com acompanhamento sistemático dos mesmos indivíduos ano após ano, a fim de obter uma amostragem que permita análises e interpretações robustas”, afirma.

Em Aquidauana, no Mato Grosso do Sul, a bióloga Helen Waldemarin e sua equipe desfrutam de uma vantagem: não depender apenas de barcos a motor, como ocorre na Amazônia. Nas águas dos rios Negro e Correntoso, os pesquisadores podem deslocar-se calmamente em canoas e aproximar-se mais dos animais. “Nas últimas duas campanhas, que duraram dez dias cada uma, identificamos 46 indivíduos diferentes por meio das manchas brancas que elas levam no pescoço, sua ‘impressão digital’”, conta Helen. O grupo monitorou 33 quilômetros dos dois rios, conferindo as áreas mais usadas pelas ariranhas. Com isso, ofereceu subsídios para que o deslocamento de embarcações nesses trechos possa ser realizado com mínimo impacto para a espécie. Grupos como a Conservação Internacional (CI), que hoje administra uma reserva particular do patrimônio natural de 7,8 mil hectares às margens do rio Negro, já buscam utilizar tais informações na orientação das atividades ecoturísticas da reserva.“Os novos dados servem para nortear nossas ações nesses frágeis ecossistemas em que atuamos”, diz Sandro Menezes, diretor de conservação da CI no Pantanal.

Como fruto das pesquisas, talvez um dia as ariranhas sejam absolvidas do estigma que as persegue desde um triste dia de 1977. E possam desfrutar do status que realmente merecem: o de serem as maiores lontras do mundo, prontas a ser admiradas em sua liberdade na natureza.

Fonte: National Geographic Brasil

Responder

Introduce tus datos o haz clic en un icono para iniciar sesión:

Logo de WordPress.com

Estás comentando usando tu cuenta de WordPress.com. Cerrar sesión / Cambiar )

Imagen de Twitter

Estás comentando usando tu cuenta de Twitter. Cerrar sesión / Cambiar )

Foto de Facebook

Estás comentando usando tu cuenta de Facebook. Cerrar sesión / Cambiar )

Google+ photo

Estás comentando usando tu cuenta de Google+. Cerrar sesión / Cambiar )

Conectando a %s