Mãe da Lua, o espírito da noite


por Fábio Paschoal 

Mãe-da-lua ou urutau (Nyctibius griseus). Quando a luz da lanterna passa diretamente pela pupila da ave vemos dois olhos grandes e vermelhos. Isso acontece porque a luz bate nos vasos sanguíneos da retina e reflete a cor do sangue. Esse efeito amedrontador ajudou a criar a história do espírito da noite – Foto: Fábio Paschoal

Mãe-da-lua ou urutau (Nyctibius griseus). Quando a luz da lanterna passa diretamente pela pupila da ave vemos dois olhos grandes e vermelhos. Isso acontece porque a luz bate nos vasos sanguíneos da retina e reflete a cor do sangue. Esse efeito amedrontador ajudou a criar a história do espírito da noite – Foto: Fábio Paschoal

Era tarde da noite, andávamos pela mata somente com lanternas, tentando fazer silêncio. Mas era impossível. As folhas secas no meio da trilha denunciavam nossa localização. Parecia que tudo estava perdido. Estávamos no Pantanal, procurando por corujas para fotografar. Andamos pra lá, voltamos pra cá, fomos até onde nosso cansaço nos permitia e nada. Era hora de voltar pra casa.

Imediatamente os fachos de luz começaram a se movimentar rapidamente! Apontávamos em todas as direções, tentando descobrir qual era a fonte daquele barulho. Mas tudo que fazíamos era em vão.

Foi nesse momento que minha lanterna passou por Carlinhos, o guia local. Ele olhava para o chão e quando percebeu que havíamos parado de procurar disse: “É a Mãe da Lua. Um espírito que aparece no início da noite. Dizem que quando ela canta as crianças precisam entrar em casa e ir pra cama ou ela irá levá-las para o outro mundo. Vem aqui que eu vou te mostrar”.

Carlinhos começou a rastrear as copas das árvores balançando a lanterna de um lado para o outro. Parou em um ponto específico e pediu pra eu ficar logo atrás dele. No momento que me posicionei entendi o que ele queria dizer. Dois olhos gigantes, vermelhos como sangue, nos fitavam no meio da escuridão.

Carlinhos continuou com a explicação: “Na verdade a Mãe da Lua é uma ave, mas ela é tão parecida com um galho quebrado que ninguém conseguia descobrir o que fazia o barulho. Pensaram que era um espírito. Até hoje as mães contam a história do espírito da noite para seus filhos, e as crianças saem correndo pra cama quando o ouvem cantar”.

O mãe-da-lua-grande (Nyctibius grandis) é o responsável pelo canto que vocês ouviram no início do post. Além dele existem mais quatro espécies de urutau no Brasil – Foto: iStockphoto/Thinkstock

O mãe-da-lua-grande (Nyctibius grandis) é o responsável pelo canto que vocês ouviram no início do post. Além dele existem mais quatro espécies de urutau no Brasil – Foto: iStockphoto/Thinkstock

Fomos chegando mais perto e conseguimos ver o animal, que é muito semelhante a uma coruja.

Também conhecido como urutau, ele precisa se parecer com um galho quebrado porque passa mais de um mês parado no mesmo lugar. A mãe coloca um ovo e fica sentada sobre ele até o filhote nascer. Se ela sair o ovo fica exposto e pode cair. Sua camuflagem é perfeita: dependendo do ângulo é quase impossível dizer onde o galho termina e a ave começa.

Quando se sente ameaçado, aumenta ainda mais sua semelhança com o tronco elevando a cabeça para cima e encostando a cauda no galho em que está pousado. Mesmo com os olhos fechados consegue ver o que está acontecendo. Duas pequenas janelas nas pálpebras funcionam como um olho mágico (aquele que você coloca na porta da sua casa pra saber quem é que está do outro lado). Graças a elas a Mãe da Lua pode ter grandes olhos – necessários para enxergar à noite quando sai para caçar insetos – sem chamar a atenção durante o dia.

Se algum dia você ouvir a Mãe da Lua cantar, não se assuste, apenas lembre-se de que é hora de colocar as crianças para dormir.

Detalhe do “olho mágico” do urutau (Nyctibius griseus). As duas pequenas aberturas nas pálpebras permitem que a ave veja o que está acontecendo sem abrir os olhos totalmente. Com isso ele mantém o disfarce de galho quebrado e sabe se o predador está chegando perto demais. Em último caso, ele voa e deixa seu ovo para trás – Foto: Fábio Paschoal

Detalhe do “olho mágico” do urutau (Nyctibius griseus). As duas pequenas aberturas nas pálpebras permitem que a ave veja o que está acontecendo sem abrir os olhos totalmente. Com isso ele mantém o disfarce de galho quebrado e sabe se o predador está chegando perto demais. Em último caso, ele voa e deixa seu ovo para trás – Foto: Fábio Paschoal

Fonte: National Geographic Brasil 

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