Guerra suja contra os rinocerontes


por Peter Gwin

Com valores tão altos quanto o do ouro, os cornos de rinoceronte são o pivô de um violento conflito

O disparo do rifle ecoa através da floresta no momento em que Damien Mander volta ao acampamento na Reserva de Caça Nakavango, no Zimbábue. Ele logo pensa em Basta, uma fêmea de rinoceronte-negro grávida, e em seu filhote de 2 anos. Naquela tarde, um dos guardasflorestais havia topado com pegadas humanas que seguiam na direção dos dois animais, enquanto Basta procurava refúgio no fundo da mata para dar à luz.

O musculoso Damien, um ex-atirador de elite das Forças Especiais australianas recoberto de tatuagens, entre as quais a expressão “Achar & Destruir” em letras góticas no peito, tenta localizar o disparo. “Veio desse lado, perto da divisa leste”, aponta para a escuridão. “O som é de um 556”, diz, identificando a posição e o calibre, um hábito que restou do serviço militar no Iraque. Em seguida, ele e os guardas agarram rifles, rádios e kits de primeiros socorros e embarcam em dois jipes, na expectativa de alcançar o autor do disparo. Quando abaixam as janelas dos veículos, os guardas ouvem outro estampido – o que significa que o filhote de Basta também fora abatido.

Os bandos de caçadores em geral contratam mateiros para rastrear rinoceronte, depois o seguem até o fim da tarde e, em seguida, informam por rádio a localização do animal a algum atirador equipado com um rifle poderoso. Depois de abatido, os dois cornos sobre o focinho do rinoceronte são decepados em minutos, e a carcaça maciça é abandonada para as hienas e os abutres. Quase sempre os cornos são comprados por um receptador asiático; caçadores mais empreendedores poderiam também extrair o feto de Basta, assim como os olhos dela e os do filhote, a fim de Este corno de rinoceronte de 3,5 quilos pode valer até 360 000 dólares no mercado negro. vendê-los para feiticeiros ou curandeiros. Caso esse bando seja bem organizado, um grupo de homens estará de vigia na rota de fuga, prontos para emboscar os guardas-florestais.

Pelo ruído dos disparos, fica evidente a vantagem bélica dos caçadores. Enquanto os jipes avançam, no banco traseiro de um deles, um guarda zimbabuano que passara quase um ano cuidando de Basta e do filhote carrega três projéteis em seu rifle, aciona a trava e coloca uma bala na agulha. Em meio às sacudidas na escuridão, comenta: “Vai ser melhor para esses caras se tiverem de lidar com um leão em vez da gente”.

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Foto: Brent Stirton
Foto: Brent Stirton

Guias acharam este macho adulto de rinoceronte-negro vagando por uma reserva no Zimbábue, depois de ter sido alvejado por caçadores ilegais. Os veterinários foram obrigados a sacrificá-lo, pois o ombro estilhaçado não mais sustentava o peso do corpo. Nos últimos seis anos, mais de mil rinocerontes africanos foram mortos por causa dos cornos, cobiçados para uso na medicina tradicional asiática.

Foto: Green Renaissance / WWF
Foto: Green Renaissance / WWF

Vendado e sedado, um rinoceronte-negro é transportado por helicóptero da província do Cabo Oriental, na África do Sul, até o caminhão que irá levá-lo a seu novo lar, a 1,5 mil quilômetros de distância. Concebido para retirar os animais de terrenos difíceis, esse tipo de transporte aéreo é parte do esforço para transferir os ameaçados rinocerontes-negros a locais mais propícios à reprodução e à alimentação.

Foto: Brent Stirton
Foto: Brent Stirton

No Vietnã, uma mulher prepara uma beberagem com um pedaço de corno de rinoceronte. Ao raspar o corno no fundo do prato e acrescentar um pouco d’água, ela obtém uma solução que muitos asiáticos consideram um remédio para várias enfermidades. Poucos estudos científicos foram realizados, com resultados inconclusivos. “Depois que comecei a tomá-lo”, diz ela, “deixei de sofrer de pedras nos rins”.

Foto: Brent Stirton
Foto: Brent Stirton

Este corno de rinoceronte de 3,5 quilos pode valer até 360 000 dólares no mercado negro.

Foto: Brent Stirton
Foto: Brent Stirton

Após a caçada em uma reserva particular, uma peça de carne de rinoceronte é pendurada no refrigerador

Foto: Brent Stirton
Foto: Brent Stirton

Após ser curado com sal-gema, o couro dos rinocerontes mortos também são aproveitados

Foto: Brent Stirton
Foto: Brent Stirton

Veterinários removem os chifres de uma fêmea de rinocerontebranco anestesiada. O procedimento, que dura 20 minutos, tem como objetivo impedir a ação dos caçadores

Foto: Brent Stirton
Foto: Brent Stirton

Composto de ceratina, proteína que também é responsável pelos crescimento de peos, bicos, penas e asas, os cornos extraídos demoram até dois anos para crescer

Foto: Brent Stirton
Foto: Brent Stirton

Para os críticos, tal prática deixa os animais vulneráveis a predadores naturais. Já os defensores argumentam que a ausência de cornos afasta os caçadores e reduz a quantidade de rinocerontes mortos por ferimentos em disputas por territórios e parceiros

Foto: Brent Stirton
Foto: Brent Stirton

Com os cornos removidos para evitar a ação de caçadores, um manso rinoceronte-branco-setentrional vive protegido na reserva Ol Pejeta, no Quênia. Com três outros brancos-setentrionais – no total, restam apenas sete deles –, ele foi trazido de um zoo na República Tcheca. Sem conseguir se reproduzir em cativeiro, foram reintroduzidos na natureza em um esforço para impedir a extinção da subespécie.

Fonte: National Geographic Brasil 

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